A história do músico e jornalista Basílio de Goa e a sua passagem pela Gazeta das Caldas, onde também se conta um pouco da história deste jornal

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Gazeta das Caldas
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Um antigo colaborador da Gazeta das Caldas dos anos 60, Basílio Magno (que assinava como Basílio de Goa) é a figura principal do livro “A Última Dança em Goa: música popular nos últimos anos do Estado da Índia Portuguesa”, da autoria de Joaquim Correia.
Trata-se de uma obra onde se divulga a cultura de Goa, designadamente nas ligações à música portuguesa, da qual Basílio Magno foi um ilustre representante.
Publicamos na íntegra o referido capítulo. C.C

 

Fascinado com os temas Rock em Portugal e Twist de Conceição que BasÍlio Magno, (mais tarde conhecido como Basílio de Goa), interpretou numa festa no Palácio do Cabo, o general Vassalo e Silva, último governador do Estado Português da Índia, ofereceu-lhe uma bolsa de estudo para continuar a sua formação em Portugal e talvez seguir carreira como compositor de letras e melodias de espírito goês.
Nascido em 1923 na cidade de Pomburpa no Norte de Goa, passou a sua juventude em Bombaim onde se licenciou em Medicina Homeopática, ao mesmo tempo que concretizava o seu sonho de estudar jornalismo, chegando a director do jornal Dadar Goan e da revista Cinema Bulletin.
“Sinto-me acima de tudo um jornalista, mas na verdade sou mais conhecido pelos temas que compus, principalmente Proud to be Goan, que se tornou um hino em Goa e na diáspora. O primeiro foi The Song of Goa, tinha 25 anos, que chegou a ser editado na East-West Music co. de Londres. Em 1953 escrevi Santa Maria, que dediquei ao Cardeal indiano Gracias, e em 1956 compus um tema dedicado à Princesa Margarida de Inglaterra”.
Escreve também duas peças em inglês intituladas St. Cyril e Mother, representadas em Bombaim e no Kuwait, e uma opereta em Concani Ek Dis Goyam (Um Dia em Goa), radiofundida pela Emissora de Goa em 1960.
Foram 12 anos dedicados à música que justificaram a iniciativa do general Vassalo e Silva, considerado o “governador do bom senso”: em 18 de dezembro 1961 tropas da União Indiana ocupam os territórios de Goa, Damão e Diu, Salazar ordena que as tropas portuguesas lutem até à última gota de sangue, mas o governador recusa-se a obedecer à ordem do Presidente do Conselho e opta pela rendição.

A chegada às Caldas

Basílio chega às Caldas da Rainha no Verão de 1962 e considera o contacto com a Gazeta como “Amor à primeira vista. Foi isto mesmo que me aconteceu, ao ver a Gazeta das Caldas. Não esperava esta beldade nesta pequena cidade povoada por 15000 habitantes apenas. E nada interessa mais a um jornalista como eu, educado e criado no jornalismo, do que um jornal para respirar os seus pensamentos nas suas colunas”, escreve Basilio na sua primeira Crónica Social, publicada em 1 de Fevereiro 1964.
Nesta altura o jornal já se publicava duas vezes por semana, após mais de 15 anos como semanário. Em 1 de Março de 1963 tornara-se o único bi-semanário do distrito e um dos poucos no país, depois de ter sido fundado em 1925 por G. Nobre Coutinho e Nuno Infante da Câmara com a periodicidade de três vezes por mês.
Uma das características das crónicas de Basilio Magno (que assina como Basilio de Goa), para além das frequentes referências a músicos e agrupamentos musicais locais – não perdendo oportunidade para divulgar os seus próprios temas, que vai interpretando em festas locais ou edita em livro – é a inclusão de assuntos diversos que agitam a vida citadina.
Escreve sobre os malefícios do tabaco, lembra a comemoração do Dia do Teatro Amador em 21 de março de 1964, desenvolve a importância histórica da Sociedade os Pimpões, realça as vitórias do Benfica e do macaísta Kong no torneio de Ténis de Mesa, questiona as razões porque “nunca a história da música registou tão forte ânimo de sentimento do público a uns artistas que estão ganhando tanta fama e fortuna pela execução das canções como se verifica no caso fenomenal dos Beatles”.
Mas não se limita a comentar estes acontecimentos mundanos.

O OLHAR SOBRE A GAZETA

A sua veia jornalística leva-o a olhar para o jornal onde trabalha, mencionando em crónica de 3 de Outubro de 1964 a criação do Grupo dos Amigos da Gazeta das Caldas (será que ainda estará activo?), quando do quadragésimo aniversário do jornal. Já em crónica de 29 de Agosto desse ano Basílio invoca o Dr. Saudade e Silva, director do jornal, sublinhando que “sempre cheio de ideias novas para o melhoramento da imprensa regional” organizou o “primeiro encontro dos redactores deste jornal” onde foi distribuído “o Bilhete de Identidade da Gazeta e a chave da porta da Redação, assinalando assim, a estima e a confiança da direcção do jornal para com os seus camaradas de redacção… para não faltar a dar a minha colaboração nesta festa… cantei a minha última criação: Canção Goesa, intitulada Lá no Cimo do Monte”.
Embora Goa estivesse sempre no seu coração, não esquecia a terra que o acolheu: “Alguém me perguntou, há dias, sarcasticamente, se eu cada vez gostava mais das Caldas! Tenho de responder que sim. Porque cada vez eu tenho o prazer de conhecer melhor esta terra, que eu tenciono adoptar, por causa da minha terra natal – Goa – estar ocupada ilegalmente pelos inimigos do nosso país, acho que tenho razão de gostar das Caldas cada vez mais.” (Crónica Social de 7 de Março de 1964)

AS DISPUTAS COM BOTELHO MONIZ

Apesar desta opção pelo Portugal de Macau ao Algarve, própria da ideologia do regime colonialista, sempre se afirmou como defensor da liberdade, designadamente da liberdade de imprensa.
Disso exemplo são as disputas com Botelho Moniz, presidente da Câmara, que ousou “considerar desejável que a nossa redacção consultasse as Câmara Municipal sobre as notícias que publicamos dela, para verificar a sua verdade, particularmente quando apontar os defeito. E terminou este post-scripts, dizendo, que não custará nada para a Gazeta prestar esta colaboração” (Crónica Social de Setembro de 1964).
Este envolvimento da Câmara nas decisões editoriais do jornal não era coisa nova na história das relações entre as duas entidades. Em artigo publicado na Gazeta em Junho de 2016, após referir serem os anos 50 exemplo destes conflitos, Luís Nuno Rodrigues refere que “Só em 1960 a Gazeta respiraria de alivio, quando Fernando Pais de Almeida e Silva termina o seu mandato, o periódico caldense formula desde logo, votos para que o próximo Presidente da Câmara seja caldense. É-o, de facto: Botelho Moniz, antigo director da Gazeta… Durante o período que Botelho Moniz ocupa a presidência da Câmara, a Gazeta mantém uma posição relativamente crítica. No entanto, essa crítica não é feita já no tom hostil e desaprovador em que era feita anteriormente. Elogia-se, por vezes, o que é bem feito, embora não se deixe de apontar aquilo que é mal feito, ou que fique por fazer. Digamos que nesta década de 60, apesar da presença de Botelho Moniz à frente dos destinos da cidade, continua a não haver uma perfeita e total concordância entre o director da Gazeta das Caldas, que é agora Carlos Saudade e Silva, e o Presidente da Câmara. … Nada se compara, porém, ao que se passará nos anos conturbados da década de 50”. (Imprensa e Poder Local: a Gazeta das Caldas: 1925-1975)
Apesar deste razoável entendimento entre a Gazeta e a Câmara, o espírito livre de Basilio Magno, na referida crónica de Setembro de 1964, conclui que “Tenho de afirmar ao sr. Presidente, que sim custará muito. Custará a dignidade da imprensa, dignidade essa, que nós temos de defender a todo o custo de lucro material ou amizade pessoal pelos envolvidos nas nossas notícias!”
Era porém sobre cultura que as crónicas mais se debruçavam, chegando a afirmar que “o panorama cultural desta cidade constitui espanto até para o visitante vindo de maiores cidades, o saber de existência de tantas instituições que abrangem diversas obras de beneficio a vida social. Daí o ter recebido com muita satisfação a notícia de que a Gazeta passará a incluir uma página de Cultura, consagradas às Artes, às Letras e à Técnica, e também ao recreio formativo e educativo” (Crónica de 21 de Março de 1964), que passaria a suplemento independente logo em 30 de maio. Porém este “não incluiria, por principio, nomes consagrados mas aqueles que demonstrem sérias aptidões ou se limitam a possuir o método de tentar construir”.

UM SUCESSO EM ESPANHA

Lembramos que para além de jornalista, Basílio era músico, e que teria sido essencialmente por isso que partira para a Europa. Daí que em 26 de Setembro de 1964 tenha surgido a sua última crónica, escrita em seu nome pela redação do jornal, anunciando que “o nosso distinto redactor pretende iniciar a sua carreira musical na Metrópole, esperando em breve lançar o seu primeiro disco com 4 canções da sua autoria: Lá no Cimo do Monte, Pobrezinhos, Mog Mog Mog e Twist da Conceição.”
Embora não haja registo de que este sonho se tenha realizado, a verdade é que seguiu carreira na área da música, designadamente fora de Portugal, com momentos altos como a oferta ao Rei de Espanha do tema Viva o Rei na Radio M-80 Madrid em 1977, que acabou por ser adoptada por essa emissora como tema de abertura do conhecido programa Goma-Espuma, que se tornou famoso na rádio e na televisão de Espanha entre 1980 e 2007. Posteriormente surgiu mesmo a Fundación Gomaespuma, que continua a organizar eventos culturais como forma de angariar fundos para beneficiência.
Mas sem dúvida que o que definitivamente tornará Basilio um símbolo da diáspora goesa foi ter sido autor do já referido tema Proud to be Goan, símbolo do World Goa Day. Comemorado pela primeira vez a 20 de Agosto de 2000 – nessa data em 1992 a Constituição da República da Índia passou a considerar o Concani como língua oficial de Goa – foi escrito por Basílio Magno a convite do Rene Barreto, um dos mais activos impulsionadores da ligação entre os goeses da diáspora e fundador do World Goa Day, para ser apresentado em Bonderam, na idílica ilha de Divar, perto de Pangim, na primeira comemoração do evento.
Em Proud to be a Goan: memórias coloniais, identidades poscoloniais e música (Revista Migrações – Número Temático Música e Migração, Outubro 2010, n.o 7,), escreve Susana Sardo que “O Dia Mundial de Goa, celebrado a 20 de Agosto nos diferentes países onde os goeses se fazem representar através de formas associativas, incorpora uma forte componente musical através da organização de concertos, festivais e concursos, para os quais diferentes grupos formalmente organizados se preparam para actuar e/ou concorrer. Especialmente para este dia Basílio Magno, um jornalista goês residente em Espanha, compôs o hino Proud to be a Goan, disseminando-o pela Internet de forma a que possa ser cantado por todos os goeses no dia comemorativo”.
Sublinhe-se que a Dra. Susana Sardo, etnomusicologa da Universidade de Aveiro, tem em mãos um projecto que em muito contribuirá para a consolidação da música tradicional – de influencia portuguesa – entre a comunidade católica em Goa, o GEMM: trata-se de um arquivo que fará justiça “à ação de milhares de músicos que até hoje vivem silenciados nos discos e nas cassetes que já ninguém escuta, nas partituras gastas pela humidade e na memória dos que um dia foram os seus públicos”.

A MÚSICA CORRE NO SANGUE DOS GOESES

Frederick Noronha, jornalista goês especializado em informação online, incluiu Basílio Magno numa lista de 101 goeses que, em qualquer campo do conhecimento e a partir de qualquer lugar da terra, de alguma forma se notabilizaram no mundo digital: através do seu Konkani Corner divulgou a imagem de Goa em Espanha e no mundo, utilizando um idioma bem característico dum território onde o português e o inglês também tinham e têm lugar. Deverá, aliás, ser realçado o importante papel que Frederick Noronha tem desenvolvido na defesa da autêntica cultura tradicional de Goa.
Basilio de Goa é um dos músicos incluídos no livro “A Última Dança em Goa: música popular nos últimos anos do Estado da Índia Portuguesa”, onde se contam histórias que procuram demonstrar que “a música corre no sangue dos goeses”. Colaboram investigadores musicais e jornalistas como a Dra. Susana Sardo, João Carlos Callixto, Luis Pinheiro de Almeida e João Pedro Gouveia, para além de muitos músicos ligados a essa arte em Goa.
Basílio Magno vive em Espanha em Torre del Mar, Málaga, onde manteve, até há poucos anos, a coluna Konkani Corner em www.melgoans.com.

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