Mily Possoz – a “Artista Modernista” nascida nas Caldas da Rainha

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Mily Possoz, mais precisamente Emília Possoz, artista modernista de origem belga é, a par da pintora Maria Helena Vieira da Silva, um dos expoentes máximos do Primeiro Modernismo Português, autora de uma vasta obra artística reconhecida (Desenho, Pintura, Gravura, Ilustração), encontrando-se representada nas colecções dos Museu de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian,  do Museu do Chiado, em colecções particulares, em  Museus e Fundações estrangeiras, nomeadamente, na Bélgica e nos  Estados Unidos da América.
Mily Possoz, filha de pais belgas (Henri  Émile Possoz e de Jeanne Rosalie Leroy), nasceu nas Caldas da Rainha no dia 4 de Dezembro de 1888, local onde então residia a sua família,  em virtude  do seu pai, engenheiro químico, fazer  parte do corpo docente da então Escola Industrial D. Leonor,  leccionando  a disciplina de Química,  na mesma Escola onde Rafael Bordalo Pinheiro também leccionou, propiciando uma amizade social e artística que haveria de perdurar e consolidar-se entre as duas famílias.
A estadia da família Leroy Possoz nas Caldas da Rainha não iria durar muito tempo, já que as qualidades técnicas e a dimensão intelectual de Henri Émile Possoz depressa despertaram a atenção da família Burnay, a qual lhe endereçou um convite para desempenhar o cargo de procurador da Casa Burnay, convite que foi aceite e motivou a sua ida da família de origm belga  para Lisboa, passando a residir na Lapa, convivendo com as elites culturais lisboetas, nomeadamente, com a família Bordalo Pinheiro, a família Raul Lino, os Bensaúde, a família Rey-Colaço e muitas outras.
A educação das duas filhas do casal (Mily e Jane), processou-se no Colégio Alemão de Lisboa, tendo Mily beneficiado de uma educação artística muito esmerada, nomeadamente em pintura, frequentando o atelier da pintora Emília dos Santos Braga, por onde também  passou a sua futura amiga pessoal, Maria Helena Vieira da Silva. Com 16 anos,  Mily Possoz continuou a sua aprendizagem artística fora do país, nomeadamente  em Paris, frequentando a Académie de La Grand Chaumière, na  Alemanha, onde aprendeu gravura com o gravador Willy Spatz, na Bélgica e  na Holanda.
Regressou a Portugal em Maio de 1908, iniciando então um percurso artístico que a levou a participar em exposições colectivas e individuais consagrando-se  como uma das mais importantes artistas portuguesas da primeira metade do século XX. Excelente desenhadora, aplica-se como exímia, delicada e sensível ilustradora, colaborando em numerosas publicações, como as revistas “ABC”, a “Athena”, a “Contemporânea”, “A Ilustração Portuguesa”, entre outras. Artista premiada, Medalha de Ouro na Exposição Internacional de Paris, em 1937; Prémio Amadeu de Souza-Cardoso, em 1944; Prémio de Desenho José Tagarro, em 1949; Prémio de Pintura Columbano, em 1951, entre muitos outros.
Participa na decoração do Pavilhão Português da Grande Exposição do Mundo Português, em 1940, convidada pelo arquitecto Cottinelli, decorando a Sala do Japão, inspirada na arte dos Biombos Namban, aí denotando toda a sua mestria e apurada técnica visíveis no seu traço, sensível, moderno e seguro.
Mily Possoz foi sobretudo uma desenhadora, especializada em gravura e em ilustração, sendo a sua obra mais conhecida o programa decorativo do antigo Livro da segunda classe, com a primeira de muitas edições a ser publicada em 1958, livro que ainda permanece no imaginário escolar de muitos portugueses.
A Fundação Arpad  Szenes-Vieira da Silva dedica-lhe a sua última Exposição temporária, patente ao público até ao dia 20 de Junho de 2010.Trabalho excelente o desenvolvido pela equipa que nos possibilitou conhecer a obra da artista caldense, obra que, estética e tecnicamente, se nos afigura de grande alcance histórico-artístico, estando de parabéns  toda a equipa que a possibilitou, nomeadamente a sua Directora, Marina Bairrão Ruivo,  e a sua Comissária Emília Ferreira.
À atenção da Câmara Municipal das Caldas da Rainha, Mily Possoz nasceu nas Caldas da Rainha, merecendo que a cidade a filie no seu Património artístico-cultural, sem demora, nem preconceito.

Referências: Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, Mily Possoz, Uma Gramática Modernista, Lisboa, 2009.

Nicolau Borges