José Oneto – o jornalista espanhol que fez a cobertura do 16 de Março

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Gazeta das Caldas - 16 Março
“Surpreendeu-me que pudéssemos chegar tão perto da porta do quartel e falar com os que estavam a controlar a entrada” | C.C.

Em 25 de Março de 1974, a revista espanhola Cambio16 surpreende com uma capa colorida de vermelho e verde com o título !Ay Portugal! Exclusiva: cambio-16 en caldas da rainha.
Nove dias antes ocorrera o 16 de Março no RI5 e precisamente um mês depois dar-se-ia o 25 de Abril. Nas páginas interiores, a reportagem escrita pelo jornalista José Oneto relata precisamente a intentona das Caldas da Rainha e prevê que dentro em breve haverá uma revolução. O jornalista falou com as pessoas certas no momento e refere os actores também do momento: Marcelo Caetano, Spínola, Kaúlza da Arriga. E contextualiza muito bem a situação social, política e militar da época.
Mas como é que numa época sem telemóveis nem Internet um jornalista espanhol (na verdade foram cinco os jornalistas estrangeiros vindos de Madrid que chegam às Caldas da Rainha e assistem ao cerco do quartel) está informado que algo se vai passar na cidade? Esse é um dos aspectos mais extraordinários da entrevista que Pepe Oneto concedeu à Gazeta das Caldas: a sua fonte foi um advogado madrileno, opositor a Franco, que tinha sido amigo íntimo de Humberto Delgado e que tinha relações com a oposição portuguesa, em particular com os militares.
Já sobre quem terá sido a fonte desse advogado, é algo que não conseguimos apurar, apesar de vários contactos que tentámos com militares que foram do MFA.
Nesta entrevista, Pepe Oneto não só relata o que recorda do cerco ao quartel das Caldas, como insere este episódio e a revolução de Abril nos ventos de mudança que por então se começam a sentir em Espanha. O 16 de Março ocorre três meses depois da morte de Carrero Blanco (o delfim do ditador Franco que é assassinado em circunstâncias envoltas em polémica) e que é substituído por Arias Navarro, que ensaia uma pequena abertura na sociedade espanhola, a qual será bem aproveitada pela imprensa espanhola.
É isso que conta José Oneto à Gazeta das Caldas numa entrevista que decorreu num clube de um bairro burguês dos arredores de Madrid, onde o jornalista, hoje com 76 anos, vive. “Na casa onde viveu o Adolfo Suarez. Comprei-a”, diz, rindo-se.

“Disseram-me que havia
movimentos militares em Portugal,
que devíamos ir para Lisboa,
mas que primeiro passássemos
por Caldas das Rainha”

 

 

 

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