Sociedade civil promove abaixo-assinado pela preservação da memória da Secla

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No último debate “21 às 21” saiu a proposta de um abaixo-assinado com o intuito de fazer pressão para que a Câmara das Caldas arrepie caminho e que integre no complexo comercial nas antigas instalações da Secla, uma área museológica sobre a fábrica. O debate, promovido pelo Movimento Viver Concelho, contou com a participação de 40 pessoas que mostraram o seu descontentamento com a proposta de construção de hipermercado, hotel e parque de estacionamento para 160 lugares a céu aberto naquelas instalações.

“A Secla é um símbolo da criatividade caldense que vai ser substituído por um símbolo do capitalismo”. Esta foi uma das ideias chave, expressa neste debate pelo vereador do PS, Jaime Neto. O também arquitecto foi uma das vozes mais discordantes na sessão moderada por Jorge Mangorrinha (ex-vereador da autarquia caldense) e que contou com as participações de Rui Gonçalves, também ex-vereador, e da museóloga Cristina Horta.
O que está previsto para as antigas instalações da Secla 1 são 4500 metros quadrados de comércio e serviços, que incluem um hotel, supermercado e restaurante. “Seria uma óptima oportunidade para reabilitar aquela zona, mas não se pode esquecer a memória do que foi a fábrica”, disseram, de forma unânime, os vários intervenientes. Ficou claro também que a valorização do património cerâmico “é secundária” quando na verdade “deveria ser central, mesmo sendo uma intervenção de iniciativa privada”.
Já em 2003 a autarquia teve um pedido de aprovação prévia para àquela área, que previa uma urbanização (com uma área museológica dedicada à Secla), com 900 metros quadrados, no edifício central da antiga fábrica. Apesar de aprovado pela Câmara, o promotor não avançou.
O que o arquitecto Rui Gonçalves estranha é que grande parte do executivo da época (Tinta Ferreira, Maria da Conceição Pereira e Hugo Oliveira) “pelos vistos mudou de opinião, dado que o novo promotor não prevê nenhuma área museológica!”.
Agora com esta nova proposta, aprovada pela maioria PSD (com os votos contra do PS), há apenas o compromisso de manter uma parte da fachada e algumas obras e azulejos da Secla nos espaços comerciais. “Não é assim que se preserva a memória da Secla!”, diz o ex-vereador, que se mostra surpreendido porque, ao contrário da maioria dos projectos que demoram tanto tempo a ser despachados, “este anda a olhos vistos”.
Rui Gonçalves defende que o promotor poderia ceder parte do edifício original de modo a criar uma área museológica sobre a Secla. Não vê lógica em que seja criada ali uma zona verde no local, dada a proximidade do parque D. Carlos I.
“Desprezar o passado e a memória do território é hipotecar o futuro”, disse, acrescentando que são esses aspectos que permitem “diferenciar as localidades”.
Em vez de espaço verde, para o ex-vereador esta “é uma oportunidade perdida para pedir 900 metros quadrados para fazer uma área museológica sobre a fábrica”.
Durante o debate, várias pessoas revelaram-se contra o projecto, sobretudo o edifício para o supermercado, “igual a qualquer outro pavilhão, próximo de um nó de autoestrada”.
Jaime Neto, vereador do PS, informou que, juntamente com o vereador Luís Patacho, promoveram uma conferência de imprensa sobre este tema onde deram a conhecer que votaram contra o projecto. “Mostrámos a nossa indignação contra esta ideia”, disse o autarca, comentando que chegou a hora dos cidadãos lutarem contra este tipo de coisas, tal como fizeram quando esteve em causa o encerramento da Bordalo Pinheiro.
O vereador explicou que em relação ao supermercado está previsto um pavilhão de 60 por 60 metros, com seis metros de altura “e que será um pavilhão descaracterizado, igual a tantos outros”. Alertou ainda para o facto de as demolições das construções contíguas ao edifício principal da Secla já terem sido aprovadas e por isso avançarão “a curto prazo”.

FERNANDO COSTA CONTRA PROJECTO

Gazeta das Caldas - SECLA
O ex-presidente da Câmara das Caldas, Fernando Costa, também se mostrou contra o projecto que o actual executivo aprovou

Fernando Costa, ex-presidente da Câmara, acha que é grave que se apague a memória da Secla. O social-democrata diz que não se deve destruir todo o seu edifício dado que dessa forma “não se preserva a memória daquela importante unidade industrial para as Caldas e para Portugal”. E receia que daqui a 10 ou 20 anos já ninguém se recorde o que foi a fábrica que laborou entre 1947 e 2008 nas Caldas da Rainha.

O ex-edil caldense também contou que a autarquia adquiriu várias colecções da Secla, num total de 6000 exemplares que se encontram encaixotadas nas caves dos museus municipais.
De resto, Fernando Costa também falou sobre a aprovação em 2003 de um projecto que previa uma área museológica e não compreende a mudança de critérios do actual executivo.
O público mostrou desde logo vontade em assinar o abaixo-assinado que ali se idealizou e que pede à autarquia que reveja a sua posição. Os interessados em assinar esta petição poderão fazê-lo na sede do MVC, que fica na rua Henrique Sales, 36.

 

Abaixo assinado
“Numa cidade que se pretende “da cerâmica”, importa preservar as memórias que lhe deram esse estatuto”

Do rico tecido industrial e oficinal ligado à cerâmica produzida nas Caldas da Rainha resta uma parte do edifício que albergou a Fábrica SECLA, a maior e mais criativa indústria cerâmica portuguesa da segunda metade do século XX. A SECLA foi o produto da necessidade de renovação e da aplicação à cerâmica dos novos paradigmas artísticos, destacando-se pelo método inovador do “estúdio”, no qual os principais artistas plásticos do país e outros notáveis estrangeiros deram o seu contributo ao desenharem modelos com finalidades artísticas ou utilitárias.
Numa cidade que se pretende “da cerâmica”, importa, por isso, preservar as memórias que, ao longo dos tempos, lhe deram esse estatuto.
Estamos na iminência, porém, de ver desaparecer, definitivamente, o testemunho físico mais relevante da história da SECLA, em nome da instalação de uma operação urbanística que mesmo apresentando, em parte, benefícios para a cidade, não salvaguarda, convenientemente, essa memória e essa identidade, in-situ, nem uma envolvente adequada à mesma.
Importa, pois, preservar uma parte do edifício original, para nele se instalar um espaço de memória e aberto à criatividade. Essa memória da SECLA deve permanecer como testemunho de uma etapa fundamental da história da cerâmica contemporânea, à escala nacional e mesmo internacional, por onde passaram milhares de trabalhadores. O espólio riquíssimo e diverso da SECLA, na posse da Câmara Municipal, e peças de outras origens da mesma época que existem em reserva no Museu da Cerâmica dariam uma visão abrangente e uma história comparada, como atrativo turístico e lastro cultural, acentuando o sentido de identidade e pertença por parte dos caldenses.
Pelo exposto, os cidadãos abaixo assinados requerem à Câmara Municipal que reveja o projeto de investimento privado para a área do edifício principal da SECLA, tendo em vista a salvaguarda da memória física da fábrica, como herança patrimonial da cidade e dos caldenses e recurso cultural e turístico.

ESAD convidou artistas e investigadores para falar da Secla

A questão do projecto para a Secla foi também abordado dias antes, a 16 de Outubro, no Centro de Artes, onde a ESAD organizou uma conversa com a participação de António Cardoso, João Serra, José Aurélio, Marta Lucas, Marta Pereira e Rita Gomes Ferrão.
A maioria considera que no próprio edifício se poderia preservar uma área que recordasse o que foi aquela unidade industrial. Há também ideias relacionadas com a reedição de algumas das peças mais emblemáticas da fábrica, com o estudo das suas colecções e da preservação de murais que existem ainda no edifício. José Aurélio gostaria que nas ruínas da Secla pudesse surgir “uma verdadeira escola de cerâmica”.
Este evento foi organizado por alunos do curso Programação e Produção Cultural da ESAD.