Um momento único para fotografar o navio naufragado em frente à “aberta”

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Gazeta das Caldas
| Miguel Castro / Pedro Ramalhete

As filmagens subaquáticas dos destroços do navio afundado em frente à “aberta”, feitas pelos caldenses Miguel Castro e Pedro Ramalhete, entusiasmaram quem se interessa por arqueologia subaquática e pela história dos navios naufragados na costa e em particular o mais famoso de todos – o Roumania, que acabou encalhado em frente ao Gronho em 28 de Outubro de 1892.
Miguel Castro, mergulhador e especialista em Biologia Marinha, estuda a história do Roumania há décadas, e diz que aquele é o “seu” navio, mas permanecem dúvidas sobre a sua verdadeira localização.

 

Miguel Castro diz que as condições que lhe permitiram mergulhar no dia 3 de Janeiro em frente à “aberta” são praticamente irrepetíveis. O mar estava calmo como é raro estar na Foz do Arelho e a água transparente devido à ausência de sedimentos vindos da lagoa porque esta não tinha comunicação com o mar. Acresce que a própria deslocação das areias que cobriam o navio provocaram naqueles dias um fundão precisamente na zona do casco da embarcação, o que permitiu mergulhar e ver parte da sua estrutura. Hoje o navio está novamente soterrado e só o conhecido pedaço de ferro ferrugento continua a emergir na maré baixa. Curiosamente, ao contrário do que muita gente pensa, aquele destroço não é uma chaminé, mas sim uma parte da popa da embarcação.

Poderão passar-se muitos anos até que haja condições para se obterem imagens com tanta qualidade como as que apresentamos. Por isso, não admira que a própria SIC Notícias tenha feito uma peça sobre o assunto.
Miguel Castro não esconde a sua satisfação pela possibilidade que teve de filmar e tocar o navio que considera ser o Roumania. Segundo contou ao nosso jornal, foi um suplemento da Gazeta das Caldas publicado em 1989 que o fez interessar-se por este naufrágio, tendo-se dedicado desde então a coligir documentação e objectos relacionados com este tema.
“Não tenho dúvidas que é o Roumania. As medidas do navio coincidem com as que são conhecidas e a localização coincide com vários relatos que li. De resto, se aquele não é o Roumania, então que navio é que está ali, com aquela dimensão?”.
Mas a verdade é que não há ainda certezas. Luís Fonseca, um médico de Peniche que há décadas investiga o Roumania acredita que os destroços deste navio estão mais a sul do Gronho, junto aos Covões. Mas não tem uma resposta sobre qual é o navio que está em frente à aberta. É que, segundo explicou à Gazeta das Caldas, entre a segunda metade do séc. XIX e as primeiras décadas do séc. XX naufraugaram 15 vapores numa extensão que vai entre o Baleal e a Foz do Arelho. O Roumania é o mais conhecido, mas é apenas mais um.
Margarida Araújo, da associação PH, que também já dedicou algum tempo a investigar este naufrágio, diz que tem dúvidas sobre a localização. “Até há alguns dias eu também julgava que este não era o Roumania e que o navio estava mais a sul, mas agora já não tenho certezas”. A investigadora sublinha que o mérito de Miguel Castro foi o de ter ressuscitado o interesse por este navio e lançado um debate que apaixona muita gente. “O Roumania é o nosso Titanic em ponto pequeno”, diz, justificando que é um naufrágio à nossa escala.
Também Paulo Caiado, outro caldense interessado no tema, não está convencido da verdadeira localização do navio, mas vê neste filme e nestas imagens um novo relançar do debate. “Todos nós, caldenses, queremos que aquele seja o ´nosso´ Roumania, que seja aquela a localização, mas a verdade é que não há certezas absolutas se é aquele ou se o navio está mais a sul”, disse à Gazeta das Caldas.

O que nos diz a gravura

A gravura feita por um artista britânico poucos dias depois do naufrágio mostra o que poderá ser a rocha do Gronho e a movimentação relacionada com a recolha de salvados e de cadáveres do navio, sob a vigilância da guarda fiscal. O Roumania pode ser imaginado como estando imediatamente à direita dos salvados que estão na praia e, nesse caso, é junto à “aberta” que repousa o navio. Mas há um movimento constante de pessoas que vêm dos Covões que pode indiciar que é de lá que trazem os objectos. E, ao fundo, vê-se no mar aquilo que poderá ser o que resta do Roumania. Ou serão destroços a boiar? As dúvidas continuam a ser muitas e faltam evidências que conduzam a uma certeza.